-
Os divinos
Nada como a natureza, esta divindade nossa…
Os Amantes, de Hugues Gillet (FRA). Disponível em: Surrealism Now.OS DIVINOS
Escurece
entre quatro paredes que são
o mundo todo.
Mas em toda a vastidão do planeta,
limitados pela luz que já não há,
estamos apenas nós
e as roupas atiradas a esmo
em um chão que nossos pés tocam, roçando
o frio.
Quentes são os corpos…
Você não me vê e não posso também vê-la,
mas escorrega para o leito delicadamente e
me chama.
Enxergo-a com a pele e assim também
me enxerga.
Assim sentimos o calor.
Sua mão toca minha barba e eu brinco
de morder seus dedos,
antes de confessar ao seu ouvido que sua presença
me petrifica de prazer.
Reclamo-lhe, quero-lhe mais.
Desço as vias de seu corpo,
investigo com meu paladar o perfume suave,
a pele, os pelos…
Você me invoca, como seu deus que agora sou.
Trêmula deusa quando chego a seu templo,
a seu centro,
a ferida que se oferece à minha boca,
enquanto me sacio sorvendo o gosto de fêmea que é.
Suas pernas, inquietas, prendem-me
em deliciosa armadilha.
Você já não sabe inteligir palavra
quando minha pétrea presença adentra o
caminho do Sol.
Entre carícias insensatas, gemidos e
grunhidos descomunalmente primitivos,
trabalhamos arduamente, lutamos,
suamos e sorrimos sem nos enxergarmos.
Seus pelos chamam meus pelos,
minha rocha clama por sua alma,
estamos febris.
Aceleramos.
Cadenciamos.
Enlouquecemos outra vez.
O tempo inexiste.
Então, sinto:
Está vindo!
Há um ponto de claridade nesta treva íntima,
que vem chegando,
mais próximo e…
MAIS próximo e…
EXPLODE!
Você já não treme mais
nem eu sou mais pedra.
Não há paredes, quarto, roupas, leito, nada.
Poderíamos ser dois sóis.
Um universo pleno de luz.
Enxergamo-nos no espelho da divina e selvagem natureza,
em um abraço que, no exercício do contorcer-se,
revela que somos os mais divinos seres,
feitos, neste instante,
de única seiva,
de sangue único.E, depois, tudo volta ao normal, à rotina. Acendendo um cigarro, despeço-me. Beijos e abraços, pessoal!
NA VITROLA: TINDERSTICKS - Let’s Pretend.
-
CVC. Los libros de Cortázar.
Exposición que recoge una selección de los libros que pertenecieron a la biblioteca personal del escritor argentino Julio Cortázar, y comenta claves significativas para encontrar en ellos rasgos de su personalidad, gustos, aficiones, afinidades y amistades literarias en un recorrido por los escolios y anotaciones, las dedicatorias y los marcapáginas.
-
Nascente
Porque antes de qualquer determinismo, você tem a liberdade.

“Family, a group of people united by certain convictions or a common affiliation, fellowship”, de Cory Green.
Fonte: http://fineartamerica.com/featured/family—a-group-of-people-united-by-certain-convictions-or-a-common-affiliation-fellowship-cory-green.html.
NASCENTE
Tantas telas e tontas câmeras
Umas me apresentam, outras me vigiam.
Sinto-me um ninguém
subitamente transformado em nota qualquer
de uma imprensa qualquer.
Um grito periférico,
brevemente expulso da garganta,
tão horrível
quanto extinguível no próximo instante.Tontas doses e tanta sede
giram à minha frente no
fim de semana.
Insuficientes
para minha alegria
fabricada.
Para terminar
este mal-estar
que sinto,
por estar tão distante
de cumprir a missão
pela qual supostamente existo.Há uma missão?
O que faço
se as paredes fecham ao meu redor,
o ar se torna raro
e, por um segundo, duvido
que vim aqui para ser esmagado?Ser eu é ser algo?
Ou sou apenas massa?
Então por que
penso tão diferente
dos que estão ao meu lado?
Talvez não haja nada a ser dito,
se não há algo novo que eles
queiram ouvir,
nada que vá além da tradição,
a velha traição.Aquele grito então se cala
e o verso se apaga.
A folha em branco
é preenchida com boas novas
mentirosas.
Velhas esperanças vãs
sufocam
ousadias novas.É neste instante que percebo:
perdido por um ou por dez,
tanto faz.
Alcanço a paz
após minha voz levantar,
não para dizer “amém”,
mas destruir e construir,
ainda que eu seja pouco.Que haja outros,
que se juntem em muitos,
e, enfim, gritem um grito
saído do núcleo,
tão incrível quanto
jamais extinguível.É o grito,
o primeiro,
de uma revolução
que nasce.
Que nasçam todas as revoluções necessárias para um ser humano melhor e mais livre! Beijos e abraços, pessoal!
NO VIDEOCASSETE: THE WHO - Won’t Get Fooled Again. -
Senti falta
Uma data tornada especial + algumas reminiscências = este poema. Espero que gostem.

.SENTI FALTA
Passei na frente daquele lugar,
o mais perfeito palco de tuas atuações.
Não entrei,
faz tempo que não entro ali.
Senti falta de meus aplausos a ti.
Senti falta de quando atuavas para mim.Senti nada!
Senti o vazio.Tu já não preenches minha visão
e mal ocupa a memória que tenho.
Receio que desaparecerás.
Receio que me desespere
por não ter encontrado
a atriz ideal àquela personagem.Adorava aquela única peça,
que não mais se reproduz.A entrada daquele lugar
onde brilhavas
não tem mais luz.Faz tempo que não entro ali.
Senti falta.
Beijos e abraços, pessoal!
NA VITROLA: ALMENDRA - Muchacha Ojos de Papel. -
Credo em tempos de crise
Um escarro guardado por muito tempo.
CREDO EM TEMPOS DE CRISEtemos vivido
em um tempo e lugar
governado
por paupérrimos reis
e por miseráveis súditos
habitado.
quanto mais sem valor
o conteúdo,
mais valor agrega.não é Medeia nem Hamlet -
é esta rotina
de ritmos caóticos
em suburbanos meios
para chegarmos aos
bairros-dormitórios.temo ser fascista e
vetar o direito
de o outro
vomitar seu inferno
em meus pés cansados.
mas posso não
admirar
e regurgito
minha pouca boa vontade
em relação àqueles.talvez ranzinza, mas
não insensível,
ainda me refugio
no melhor que posso encontrar.
um lugar e tempo
em que reis são majestosos,
talvez sábios e justos,
e seus súditos
ainda não se arrastam e
não se estranham
em torcidas adversárias.é o meu credo em tempos de crise.
Beijos e abraços, pessoal!!
NA VITROLA: RADIOHEAD - Knives Out. -
O que nem os poetas sabem
Poema nascido entre uma audição de Tom Zé e a percepção de que é necessário ir ao super.
O QUE NEM OS POETAS SABEMVocê vai mostrá-lo sua intimidade.
Ele vai se escandalizar
com seus segredos:
Aquelas mentirinhas mal-inventadas
para colorir
a vidinha cinza.Ele vai contar quase todas as suas proezas.
Você vai ficar enciumada,
mas esperançosa de que,
com ele,
a vida seja cor de rosa.Nem tanta rosa, tampouco cinza.
Talvez um casal simpático.
Talvez cada um de cada lado.
Biliosos.
Ardorosos.Quem garante o que será?
Haverá ar na Terra?Então, em uníssono mudo,
um absurdo de probabilidade -
este uníssono mudo pensado, o poeta sabe -,
cada um se pergunta:
“Te mato, me morro ou te peço em namoro?”
Beijos e abraços, pessoal!!
NA VITROLA: TOM ZÉ - Apocalipsom (O Fim no Palco do Começo). -
Café bucólico
Uma proposta simples ou simplória para, desde o início deste ano, vivermos mais e julgarmos menos. Ou apenas um poema, destes que trata de utopias que apenas o desejo, simplório ou próximo ao delírio, pode trazer à tona.
CAFÉ BUCÓLICOPassamos muito tempo
definindo o mundo
e as coisas que há no mundo.
Desferindo golpes
contra o que não nos agrada.
Definhando antes
de provar o sabor da vida.É amargo o gosto de entender:
estamos desesfinindo o mundo.
Trotando desesperados
atrás de um baú que oculta
um tesouro
oco.Vem, vamos tomar um café.
Gozar nossas presenças
e o cheiro que nos alcança as narinas.
Em profundo silêncio
da mente.
Que seja um 2013 sensacional a vocês! Beijos e abraços, pessoal!
NA VITROLA: TOM PETTY & THE HEARTBREAKERS - Don’t Do Me Like That. -
Rubridão
.Econonsense bem-intencionada, porém possivelmente falível. “Rubridão” não existe. É um neologismo. Existe agora. Sem mais! Ao poema:
RUBRIDÃO
A baleia branca
percorre
(ou pernada?)
ânder uáter*
o mar negro.Não sei em que poço
de negróleo
se perdeu
ou se achou.Obscura a língua
dos homens.
Falam
estranhando
ou rindo.Púr uaite ueil…**
Haverá futuro?
Ou haverá,
pra baleia-criança
que sorria na foto,
uma bela lança
de sangue
sedenta?Quando se trata
do diminuto
mecanismo
funcionando
perfeitamente
na máquina ideal
que é neste mundo
sem dó…… que importa?
__________________________________________________
* underwater, debaixo d’água
** poor white whale, pobre baleia branca
Beijos e abraços, pessoal!
NA VITROLA: Frank Zappa - Zoot Allures (Full Album). -
Devaneio em pétala
Um poema de despetalar, de desencanto e também de buscar refúgio para preservar-se alguma beleza. Ou memória da beleza.
DEVANEIO EM PÉTALAHá uma flor
que vi
num raro sonho ou pesadelo.
Despetalava
enquanto ninguém
percebia.
Na desarmonia dos passos
em uma vital via.Quantos estão felizes?
Ela gostaria
de ser otimista como você.Mas suas pétalas
eram fracas.
Apenas eu vi quando caiam.
Mas, prisioneiro do devaneio,
querendo chorar,
sorri.Despetala, flor,
que seu lugar não é aqui.
Alguém irá levá-la
enquanto memoria seu contorno,
sua descor,
e plantá-la em outro jardim
de nome
Poesia.
Beleza. Ou memória da beleza. Lembrem-se, amigos: há mais no mundo que o corriqueiro. Beijos e abraços!
NA VITROLA: Nara Leão - O Barquinho.
